alguém que se importa por aqui? rs
obrigada, viu ?
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Nós, números engavetados
Sou mais um número no censo do ano passado. Ninguém se importa com o que sou dentro de mim, apenas com o que aparento ser. Eles só querem saber a cor do meu cabelo, a minha sexualidade, a minha religião e quantos filhos eu tenho.
Superficialidade quantitativa, eles querem me enquadrar num modelo de estereótipo que eles criaram. Dessa forma a sociedade fica mais organizada, são castas, raças, classes sociais, opção da sexualidade, protestantes e católicos. Analisam a minha estrutura física e esquecem da minha mental. Agora entendo o porquê das pessoas se importarem tanto com a aparência, ninguém dá valor à personalidade.
Todo mundo esquece do próprio mundo dentro de cada um. A infinidade de pensamentos, a diversidade de conceitos, a beleza da ideologia autônoma. Tudo foi acantoado, eles só querem números e mais números. São números que nada querem dizer. Uma generalização desnecessária, uma forma de entendimento que, posteriormente, não vamos entender. Cada um é cada um, vamos além dessas definições físicas, não adianta igualar.
Colocaram-nos nas gavetas distintas, que separam a nossa cor e nossa nacionalidade. Somos muito mais que uma taxa de melanina e podemos fazer parte de um lugar que não exista no mapa geográfico. Inventamos nosso próprio lugar, nosso estado.
Morgana Rocha
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tóxica substância
injetada na veia
mostra que a vida é feia
mas não há como mudar
assim o ignorante senta na cadeia
do próprio ignorar
e fica, conformado,
quietado e adestrado,
deixando a vida passar.R, quase poeta.
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Eu ouço o som do pranto que ainda não escorreu dos olhos. Eu leio os dramas dos jornais da próxima semana. Observo os cacos do copo que ainda não se espatifou no piso. Eu sinto o frio do inverno em pleno verão. Eu espero o tempo todo pela pedra do caminho, o tropeço, ponto final. Enxergo a tempestade que vem depois do amanhecer ensolarado. É no silêncio que existe na vírgula que mora meu estado. Já espero a morte do personagem assim que a trama se inicia. Então não se assuste com as luzes apagadas que reparas pela janela aberta quando já é noite. Não sinta a culpa que aperta tua coluna e o impede de encontrar posição para dormir. Expulsa a insônia dos teus olhos e ignore se ela for morar nos meus. Já é rotineiro o olhar vidrado no meio da noite, a programação da madrugada já está decorada à semanas. Me familiarizo com a espera que dura até o nascer do sol, quando mais um dia vazio se inicia e posso fingir que vivo. A noite é afobada demais, me inquietam os boêmios dissertando suas verdades trôpegas na calçada fria. Me dói a saudade que já não me permito pensar. Divago demais, tu não entende. Divago demais e tu não me entende. Então deixa eu me perder na imensidão do céu quando as estrelas aparecem. Deixa eu me afogar no silêncio estagnado do último suspiro.
Sou uma tragédia anunciada e ninguém sobreviverá ao acidente.
G.
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